terça-feira, 12 de outubro de 2010

Assim, tão de repente

Valquíria queria brincar. Tinha muita energia, suas pernas não conseguiam parar quietas e até sua respiração estava acelerada. Começou a fazer movimentos, girou os braços, dobrou os dedos, agachou, agachou, pulou, pulou o mais alto que pode, pulou de um degrau, da cadeira, do muro. Caiu! Seu joelho agora estava ralado, mas não sangrava. Valquíria continuou brincando, achava bonito ter um machucado, admirava os meninos que tinham alguma parte do corpo quebrada. E quando conhecia alguém, sempre fazia a mesma pergunta: "Você já quebrou alguma coisa?". Além do que, achava o máximo os recados e desenhos que as pessoas faziam no gesso. Pensava que quando chegasse sua vez, queria ter um gesso bem colorido, nada de canetinha de uma só cor, pensava em talvez até colar adesivos, podia fazer um mosaico!
Teve uma grande idéia: a parede de seu quarto_ afinal, nada mais parecido, era como um gesso gigante! Fez vários desenhos, colagens, usou até grãos de arroz, feijão e ervilhas, miojo, grama, pensou em colar uma joaninha, mas achou que seria maldade com a bichinha, então viu um besouro, achou perfeito, o colou com durex. Não via a hora de seus amigos desenharem e deixarem seus recados. Estava realmente excitada com tudo aquilo. Passou dia e noite decorando seu gesso gigante, até que dormiu, e naquela noite no seu novo mundo entrou.

Maria que amava

A cada dia que passava a certeza de que João não seria mais seu aumentava. Outro verão tinha chegado e Maria continuava sozinha. Não que ainda gostasse dele, mas no fundo, bem no fundo, achava que um dia ainda voltariam a ficar juntos. Maria sempre o amou, apesar de João nunca realmente ter acreditado nisso, é que o jeito bruto do seu amor o confundia, mas quem disse que amor tem jeito certo de ser? Sentia falta da cumplicidade e brincadeiras que um dia tiveram, do amor forte e incondicional de João, que na época a incomodava um pouco, mas agora...ela tinha mudado. Viu,que homens como João, não se acham por aí a cada esquina.

domingo, 26 de setembro de 2010

No Olho Do Furacão

o sangue grosso escorria de suas pequenas mãos, o corte tinha sido profundo, mais do que ela mesmo imaginava. agora não havia mais saída. era impossível cessá-lo. paredes, espelho, toalhas, pia, chão, e tudo mais foram tingidos pela sua dor vermelha. mas não estava arrependida, estava com uma estranha satisfação. a intensidade do momento presente a excitava. sua cabeça começou a rodar, suas pernas ficaram trêmulas e fracas. ouviu crianças brincando na rua, uma buzina tocando, um cachorro latindo, o sopro do vento e seu último suspiro.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

chuta que é macumba!

tudo que eu queria essa semana era me injetar numa bolha fora do tempo, onde eu simplesmente ficasse de férias da humanidade e do planeta sem ter que falar uma vogal que seja com alguém, e mais importante do que isso: não ter que ouvir nada, n-a-d-a.
como se eu voltasse pro útero materno por apenas uma semana. isso, acho que uma semana seria o necessário pra eu recuperar minhas energias físicas e principalmente mentais. se pudesse nesse período bolha também arrancaria meu cérebro pra ver se ele cala a boca um pouco e me deixa em paz de mim mesma. porque andei pensando, a coisa mais insana é brigar com seu próprio cérebro, afinal, como se briga consigo mesma, por acaso eu sou duas "eus", me sinto um tanto ridícula por isso e muito mais muito mal humorada.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O que era mesmo?

A vida é só uma, o menino pensou. A bola do chiclete rosa estourou. O gato miou. O cachorro uivou. O avião aterrisou. Bernardete desmaiou. Olavo vomitou. O mendigo cochilou. Sua calcinha a puta tirou. O velho gozou. A folha passou. E o vento levou. Levou ou ou auuuh, até onde os olhos não mais alcançavam. Onde não existia mais brisa, nem olfato, nem tato. Levou simplesmente levou. A vida leva. Sempre. E também traz. Sempre. Mais, eu quero é mais

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O Começo do Fim do Começo

No meio da floresta estava a menina, perdida, com seu balão de coração vermelho. Mas mesmo estando perdida a menina tinha um expressão serena. Estava com um vestidinho azul, feito com carinho pela sua tão amada avó. Viu um pé de manga, sua fruta preferida, foi correndo em sua direção. Existem poucas coisas que se comparam ao prazer de chupar uma suculenta manga. Chupou uma, duas, três. Seu balão estava amarrado num galho da árvore. A menina, de barriga cheia, dormiu. Sonhou. Acordou. Agora já era começo de noite. Desamarrou seu balão e continuou sua caminhada. Seu semblante não era mais sereno. As coisas começavam a ficar pouco visíveis, e os vaga-lumes cada vez mais visíveis. A menina pediu ajuda pro seu anjo da guarda. E de repente seu balão se iluminou, e depois começou a puxá-la para cima. E então, a menina voou com seu coração iluminado até as nuvens, até as estrelas, até a Lua, até o Universo.

domingo, 30 de maio de 2010

ABC

Alceu, o assustado, acordou apressado, amassando a Anita que acordou aflita.
Beth, a brava, brigou e berrou botando o bofe bagaceiro no bueiro.
Caco, o coitado, caiu com seus culhões cagados calejando o caquético cão condenado.
Dinorá, a doida, dançou devagar, dando dedada danada e dominando o ditador do Decimar.
Evandro, o esperançoso ermitão, esperava equilibrado Ésquilo, o esquilo de estimação.
Fabíola, a frígida freira ferida, fazia friamente o ferroso feijão no fogão.
Gabriela, a galega gaga, galopava graciosa guiando-se pela gaivota.
Hélio, o honesto historiador hilariante, é um homem que se hidrata com hidratante.
Ívis, a incrível islandesa imbecil, imaginou imensas idiotices e a igreja invadiu.
Jacó, o jocoso jumento jotalhão, jazia na janela das jacas de João.
Laura, o linda loira linguaruda, lambeu limão nos lábios do ladrão.
Melina, a menina moleca maldosa, mexeu maliciosamente com a mente do menino mirrado de'mente.
Nara, a niilista, nadou nua na nave nacionalista.
Osmar, o ourives orelhudo e ordinário, ouviu Orlando, o otário.
Paulina, a puta de pinta no peito, partiu para o Paraguai com o pomposo prefeito.
Quitéria, a queniana que o queixo quase quebrou, a quitanda quitou.
Rui, o risonho roedor, roeu, rosnou, e a roupa do rei de Roma rasgou.
Saulo, o safado surfista, sacodiu a suja sacola da singela santista.
Téo, o tapado tarado, tirou do tablado todo toucinho tostado.
Úrsula, a última urangutanga, uivou na úmida Uganda.
Vando, o viado valentão, viu vazar o violento vulcão.
Xoxa, a xamã, fez "xã xã xã xã!"
Zeca, o zelador, a zebra zuou.